Turismo religioso esbarra em círculo vicioso para crescer

Quais são os fatores que limitam o crescimento do turismo religioso no Brasil?  Uma rápida análise mostra que, para crescer no Brasil , o turismo religioso precisa solucionar diversos problemas.

Alguns deles dependem de ações do governo ou de órgãos ligados a eles. São fatores como divulgação, sinalização, melhoria de estradas, fiscalização, redução de impostos, incentivos ao investimento privado e até formação de mão de obra.

Já outros, muito provavelmente os mais importantes, dependem de ações da iniciativa privada. Alguns dependem de investidores, como a implantação e reforma de hotéis, pousadas e restaurantes.

Outros dependem de mudanças na postura de operadoras de turismo, empresas de turismo receptivo e agências de viagens e turismo, como a criação de roteiros de turismo religioso com saídas regulares e a disseminação desse tipo de produto junto às agências, responsáveis pelo atendimento dos consumidores que desejam fazer uma viagem religiosa ou peregrinação.
 

Falta de oferta de roteiros de turismo religioso

Igreja de São Francisco de Assis, em São João del Rei, em Minas Gerais

Todas as semanas recebemos mensagens e comentários de leitores querendo informações a respeito de empresas que ofereçam roteiros para os principais destinos de turismo religioso no Brasil, como Aparecida, Canção Nova, Nova Trento ou Trindade, onde está localizado o Santuário do Divino Pai Eterno.

Infelizmente, a resposta acaba sendo invariavelmente a mesma: praticamente não existem roteiros regulares para esses destinos partindo dos grandes mercados ou de cidades com aeroportos concentradores, como São Paulo ou o Rio de Janeiro.

No mercado de turismo de lazer isso não costuma acontecer e é bastante fácil encontrar operadoras e agências de turismo oferecendo roteiros para destinos turísticos de lazer durante praticamente todo o ano.

Esse é um problema que afeta seriamente o turismo religioso no país, que depende muito das caravanas organizadas por inciativa de pessoas empreendedoras de todas as partes do país, que alugam ônibus e vans para fazer essas viagens, que dependem da formação de grupos para acontecerem.  

Círculo vicioso


Nicho com a imagem original de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida,. SP

Como nenhuma operadora, especializada ou não, se animou a explorar esse mercado, acabou sendo criado um círculo vicioso: as operadoras não criam o produto, as agências não o vendem e os fiéis interessados em roteiros para Aparecida, Canção Nova, Santuário do Divino Pai Eterno e outros acabam viajando por conta própria ou optando por viajar para destinos religiosos no exterior ou até por não viajar.

Isso não implica que viajar por conta própria ou visitar destinos de turismo religioso no exterior seja ruim.

Significa apenas que, caso esses roteiros  de turismo religioso existissem, dezenas de milhares de brasileiros poderiam aproveita-los para viajar e conhecer esses destinos. Afinal, nem todo mundo gosta de viajar sozinho ou tem a iniciativa necessária para “se virar” por conta própria.

A oferta de pacotes e roteiros para os principais destinos de turismo religioso do Brasil certamente resultaria numa série de reflexos positivos em termos de geração de empregos e renda, arrecadação de impostos, ampliação da infra-estrutura de hospedagem, alimentação e recepção de visitantes, entre outros.

 
Gargalo

Outro problema relevante é a falta de capilaridade. A maioria absoluta das empresas que organizam viagens de turismo religioso não atua como operadora, ou seja, como atacadista, cuidando da organização de “pacotes” ou roteiros.

Esses produtos turísticos reúnem de forma organizada transporte aéreo, terrestre e/ou marítimo, hospedagem, passeios, guias de turismo, refeições, entradas, etc., enfim, praticamente tudo o que o passageiro precisa.

Os pacotes ou roteiros criados pelas operadoras são revendidos pelos agentes de turismo, que recebem uma pequena comissão para atenderem e orientarem os consumidores.

Como as empresas que só se dedicam ao turismo religioso acabam trabalhando com a formação de grupos fechados para paróquias, dioceses ou comunidades religiosas, as viagens que elas organizam não são encontradas pelos consumidores que procuram uma agência de turismo.

Além disso, como viagens de turismo religioso ainda não são muito conhecidas, muitas agências não se sentem animadas a oferece-los, já que é difícil para um agente de turismo recomendar um produto que não conhece bem.
 

Círculo vicioso

Quando se consulta uma operadora ou empresa de turismo receptivo sobre quais são as razões para que ela não ofereça roteiros com saídas regulares (mensais, quinzenais, semanais ou com qualquer outra frequência) para destinos de turismo religioso, ouve-se como resposta que falta demanda para que os produtos sejam oferecidos.

Ao mesmo tempo, quando se consulta os consumidores e alguns agentes de turismo a esse respeito, a constatação é de que existe muita gente interessada, mas não existem roteiros e pacotes específicos para atende-los.

Ou seja, é um círculo vicioso em que não há oferta com a alegação de que não existe demanda e a demanda é reprimida por falta de oferta de produtos turísticos.

 
Como quebrar o círculo vicioso

O que falta é aparecerem empresas dispostas a investir na quebra desse cículo vicioso, oferecendo produtos para satisfazer a demanda que certamente existe e está reprimida.

Quando passarem a existir viagens com saídas regulares para Aparecida, Guaratinguetá, a Canção Nova, Nova Trento, Trindade e outros, os consumidores passarão a se programar e aproveitar os pacotes e roteiros oferecidos.

É claro que o resultado não será instantâneo e – a exemplo do que acontece com outros produtos – irá requerer um trabalho paralelo de promoção, tanto junto ao público final quanto aos agentes de viagem, que precisam ser obrigatoriamente inseridos no mercado de turismo religioso.

Continuaremos aprofundando o assunto em novos artigos. Aguarde!
 

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Ver comentários

  • Prezado Sr Redator, Bom Dia
    Concordo em quase todo seu artigo publicado, entretanto como agente de viagens e representante de uma pequena agência de viagens em Salvador, õbvio que as grandes operadoras poderiam aproveitar mais ainda este segmento que cresce a cada dia, porém se não dão a devida atenção ou prestígio, poderiam incentivar através das associações representativa das agencias(ABAV) uma melhor investida em publicidade ou mesmos aquelas pequenas agencias não vinculadas a associações, deveriam ter oportunidade em divulgar seus roteiros religiosos através de mídias impressa ou digital vinculadas as dioceses ou arquidiocese das suas cidades.
    Atenciosamente,
    Carlos Triunfo

    • Prezado Carlos,
      Muito obrigado pela sua participação e por ler a Viagens de Fé, a publicação brasileira sobre turismo religioso.
      É muito importante que, como você fez, outros agentes de viagem que também são nossos leitores exponham as suas necessidades e opiniões.
      É justamente para permitir essa interação que disponibilizamos espaços para comentários e o Correio do Leitor, que também divulga o que é recebido através de e-mail ou ligações telefônicas
      Desde o princípio a Viagens de Fé tem defendido o agente viagens e o indicado como o parceiro mais recomendado para quem deseja fazer uma viagem de turismo religioso, principalmente os associados às ABAVs e às outras organizações profissionais regionais, como AVIESP, AVIRRP e outras.
      Sabemos e temos procurado explicar aos nossos leitores que o consumidor só tem vantagens ao usar os serviços de um profissional especializado de uma agência de viagens.
      No caso das operadoras, nossa recomendação tem sido no sentido de seja dada preferência àquelas associadas à BRAZTOA.
      Em um mercado cada vez mais competitivo, em que os agentes têm de concorrer com agências de viagem virtuais e têm a sua remuneração diminuída nos produtos mais tradicionais, nos parece lógico que sejam apoiados pelas entidades que os representam na sua busca de novos segmentos para explorar.
      Nos parece lógico, portanto, que essas entidades ajudem os agentes a conhecer melhor e explorar o mercado de turismo religioso, investindo em cursos de qualificação, em divulgação e até em dar mais destaque ao segmento nos eventos que organizam.
      Como foi exposto da matéria, sabemos que para crescer o turismo religioso precisa ser conhecido e vendido pelas agências de todo o país.
      Não temos dúvidas de que em breve as operadoras passarão a promover mais os seus roteiros de turismo religioso e a realizar treinamentos para os agentes, como já fazem com seus outros produtos.
      No tocante à divulgação desse produtos pelas agências nas mídias mantidas por Arquidioceses, Dioceses ou Paróquias, acreditamos que isso faça parte de um conjunto de ações que devem incluir aproximação, compreensão de necessidades e apoio, inclusive com investimento publicitário, se for o caso.
      A agência, qualquer que seja o seu porte, deve aprender a se relacionar com esse público e a cultivá-lo. Como, aliás, já é prática comum quando se trata de outros públicos, como por exemplo, funcionários de uma determinada empresa ou membros de um clube social ou esportivo.
      Em breve estaremos lançando uma newsletter sobre turismo religioso voltada exclusivamente para agências e operadoras, discutindo esse assunto em maior profundidade e apontando caminhos para que o mercado cresça e se fortaleça.
      Continue participando e compartilhando a sua opinião!
      Abraços,
      Amadeu Castanho

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