Turismo religioso, numa definição informal, é o termo usado para designar o deslocamento de uma ou mais pessoas para fins ligados à fé e/ou à devoção. É o deslocamento de pessoas em busca do Divino.
Pode ser praticado entre cidades, estados ou até países, mas também pode ser praticado na mesma cidade. Abrange desde visitar uma igreja até a participar de eventos, romarias e peregrinações de curta ou longa duração no Brasil, ou no Exterior.
Todos os anos o turismo religioso movimenta cerca de 350 milhões de pessoas de diversas religiões pelo mundo tudo, em viagens nacionais e internacionais, individuais ou em grupos familiares ou de afinidade, para participarem de festas litúrgicas, visitas a templos e lugares ligados ao culto, peregrinações, romarias, eventos ou experiências espirituais, como retiros, encontros e aprofundamentos.
Esses 350 milhões de fiéis de diversas religiões que praticam turismo religioso, dos quais cerca de 35 milhões só aqui no Brasil, viajam para destinos e eventos que são procurados por motivos de fé, devoção e transformação pessoal. Trata-se de um segmento altamente significativo, tanto em quantidade de praticantes quanto em termos de impacto econômico e social.
Segundo a Organização Mundial de Turismo (OMT), as viagens de fé e devoção representam cerca de 20% do total do turismo mundial, envolvendo a cada ano um contingente de 330 milhões de turistas, que fazem aproximadamente 600 milhões de viagens religiosas nacionais e internacionais, das quais 40% ocorrem na Europa e movimentando recursos da ordem de 18 bilhões de dólares.
Em estudo divulgado em 2020, o IBGE apontou na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua 2019 -, que a motivação “Religião ou peregrinação” representou 2,9% do volume das viagens nacionais.
Já a Pesquisa de Demanda Turística Internacional de 2019 do Ministério do Turismo (MTur) estimou que a religião motivou 0,8% de todas as viagens internacionais realizadas pelos brasileiros nesse ano.
De acordo com dados do Departamento de Estudos e Pesquisas do MTur divulgados em 2014, naquele ano cerca de 17,7 milhões de brasileiros viajaram pelo país levados pela fé. Destes, aproximadamente dez milhões (56,5%) fizeram viagens sem pernoitar no destino (excursionistas) e outros 7,7 milhões (43,5%) permaneceram pelo menos uma noite no local, gerando um impacto econômico anual da ordem de R$ 15 bilhões.
No entanto, estudos independentes baseados em dados confiáveis apontam um volume de praticantes de turismo religioso pelo menos duas vezes maior.
O próprio Ministério divulga informações que corroboram essa estimativa: segundo estudo do MTur, entre os 344 municípios brasileiros que possuem atrativos de turismo religioso, 177 possuem calendário de eventos exclusivos para os praticantes dessa modalidade de turismo.
Decisões estratégicas no turismo religioso
Mas como transformar esse gigantesco volume de pessoas que viajam motivadas por fé e devoção em decisões estratégicas?
Como aqueles milhares ou até milhões de pessoas que visitam o nosso destino, atrativo ou evento podem nos ajudar a definir o que fazer para que elas tenham uma experiência mais agradável, permaneçam mais tempo, façam mais coisas, gastem mais, voltem mais uma vez, ou ajudem a divulgar o nosso destino, atrativo ou evento religioso?
A resposta está na coleta e análise dos dados relativos a essas visitas e no uso dos resultados dessa análise na tomada de decisões estratégicas.
Infelizmente, estamos acostumados a tomar decisões baseadas na intuição, em observações superficiais, no “achômetro”, no “palpitômetro”, mas para que o turismo religioso tenha um crescimento estruturado e constante, com efeitos permanentes para o nosso destino, atrativo, celebração ou evento e reflexos positivos para a economia e a população locais, é extremamente importante que as decisões que irão corrigir deficiências percebidas e nortear o futuro sejam tomadas após a coleta e análise de dados gerados pela movimentação dos visitantes.
Nem sempre é fácil de se obter esses dados, e mesmo quando eles são obtidos, é importante lembrar que nem sempre são exatos ou confiáveis. Existe sempre uma margem de desvio em toda pesquisa.
Mas, com um pouco de tempo, cuidado, método e bom senso, esses dados podem ser obtidos, analisados e transformados em base para decisões estratégicas.
Que dados nos interessam?
Mas que dados são esses? Ao analisarmos os visitantes que chegam a um destino ou atrativo de turismo religioso ou participam de uma celebração ou evento religioso queremos colher o máximo possível de informações que nos permita identificá-los e saber o que os motiva. Por exemplo:
- Quem são esses visitantes? Quantos são do sexo masculino e quantos são do sexo feminino? Quais são as suas idades? De onde eles vem? Eles viajam sozinhos, em família ou em grupos de afinidade, como frequentadores da mesma paróquia, membros do mesmo grupo de oração ou seguidores de tal sacerdote ou religioso?
- Essa é a primeira vez que visitam o destino ou atrativo, ou participam da celebração ou evento? Caso não seja, quantas vezes já visitaram antes e qual foi a frequência dessas visitas? Como esses visitantes chegam? Em excursões organizadas por agências especializadas, por agências não especializadas, por organizadores de caravanas ou por conta própria?
- Que meios de transporte eles utilizam? Ônibus, micro-ônibus, vans, carro particular, veículos alugados, caminhões pau de arara ou outros meios de locomoção? Qual é o percurso percorrido para chegar e qual é o percurso utilizado dentro do nosso destino?
- Existe a percepção de algum problema nesse percurso, como por exemplo falta de sinalização adequada, calçamento muito ruim, ruas muito estreitas, subidas íngremes ou curvas muito “apertadas” que exigem manobras de veículos maiores, como os ônibus? Onde esses veículos são estacionados?
É fácil o acesso dos visitantes a partir de onde esses veículos param ou estacionam? Existe estrutura para apoio aos motoristas nesses locais, como por exemplo sanitários ou acesso a água potável ou alimentos? - Esses visitantes se hospedam no destino ou a viagem é do tipo bate-e-volta, do tipo tecnicamente classificado como excursionismo? Caso se hospedem, costumam ficar no próprio destino ou em cidades próximas? Se não ficam no próprio destino, qual é o motivo para isso? Falta de capacidade de hospedagem, falta de qualidade dos meios de hospedagem existentes, prática de preços de hospedagem muito altos, oferta insuficiente de meios de alimentação no horário noturno?
- Essas pessoas se hospedam em hotéis, em pousadas, em pensões, em casas de parentes ou amigos, em casas particulares, em dormitórios de conventos, seminários, etc.? No caso de hotéis e pousadas, têm preferência por alguma categoria, como três ou quatro estrelas, por exemplo? Preferem acomodações individuais, duplas, triplas, quádruplas ou dormitórios coletivos?
- Quantos dias elas levam para chegar e quanto tempo elas permanecem no destino? Quanto elas gastam nessas viagens? O pagamento é feito à vista, parcelado, via boleto bancário, Pix ou cartão de débito ou de crédito?
- Quais são os seus hábitos de consumo? Elas fazem questão de fazer compras, levar lembranças, etc.? Onde elas costumam comprar? Em lojas, vendedores na rua, vendedores junto de igrejas e monumentos?
- Onde e com que frequência esses visitantes costumam comer? Que tipo de alimento eles preferem? Preferem pratos mais parecidos com a alimentação que têm em casa ou se contentam com lanches? Quantos têm necessidades específicas de alimentação, como dietas e restrições alimentares? Quantos deles têm necessidades especiais, com deficiências de locomoção, visão, audição, etc.?
- O que motivou a viagem dessas pessoas? A presença de religiosos, pregadores ou artistas conhecidos influenciou a decisão de viajar? Como elas tomaram conhecimento do nosso destino ou atrativo de turismo religioso ou ficaram sabendo da nossa celebração ou evento religioso? Assistiram alguma notícia na televisão, leram alguma reportagem em um portal, site ou blog, foram atingidas por uma postagem em alguma mídia social, leram alguma notícia no jornal da paróquia, ouviram um comentário, receberam um convite de pessoas amigas ou conhecidas?
- Elas costumam fazer outras viagens por motivo de fé e devoção? Em caso positivo, para onde no Brasil ou no Exterior com que frequência? Costumam viajar só nos seus períodos de férias, também aproveitam finais de semana e feriados prolongados ou não têm restrições para viajar, pois são aposentadas?
No caso de celebrações e cerimônias religiosas, é importante conhecer informações como quantas das pessoas que participam costumam se confessar no local e quantas costumam comungar.
Por que esses dados nos interessam?
Essas são só algumas das muitas perguntas que podemos fazer com o objetivo de analisar e entender melhor as expectativas e necessidades de quem visita – e até de quem não visita – o nosso destino, atrativo, celebração ou evento.
Desse modo, é possível conhecer em maior profundidade e tomar decisões mais realistas, práticas e conectadas com esse público, transformando, melhorando e tornando mais marcantes as suas experiências durante essa visita.
A partir da análise dessas informações, podemos entender melhor as pessoas que praticam turismo religioso, as suas necessidades e os motivos que as levam a viajar.
Conhecendo com maior clareza essas pessoas e as suas necessidades, podemos tomar decisões estratégicas sobre a promoção e a infraestrutura do destino, atrativo, celebração religiosa ou evento, potencializando a atração dos visitantes, aperfeiçoando os serviços colocados à sua disposição, tornando a experiência que lhes é oferecida mais impactante e significativa, bem como a orientar estratégias de preservação do patrimônio religioso.
O Santuário Nacional de Aparecida é um excelente exemplo da boa aplicação da coleta e da análise de dados, que são utilizados para alocar recursos humanos, fazer melhorias e programar novos atrativos.
Muitos desses dados são sigilosos, em função de seu caráter estratégico, mas outros são divulgados periodicamente.
Graças a isso, podemos saber que em 2024 o Santuário Nacional recebeu 9.057.885 fiéis. Que 42% do total desses romeiros e peregrinos visitaram o Santuário no primeiro semestre, enquanto a segunda parte do ano concentrou 58% dos visitantes e que o último trimestre se manteve como o período de maior movimento, concentrando mais de 2,7 milhões de romeiros, ou 30% do total do ano.
Que, como seria de se esperar, o maior número de fiéis foi registrado no dia 12 de outubro, consagrado à Festa de Nossa Senhora Aparecida, quando o Santuário recebeu 139.821 romeiros.
E que a semana com maior número de visitantes em 2024 foi entre os dias 10 e 16 de novembro, aproveitando o feriado do Dia da Proclamação da República, quando foram registradas 288.616 pessoas ao longo dos sete dias.
A concentração de visitantes em 2024 foi maior aos fins de semana, feriados e emendas de feriados, concentrando 83% do público, enquanto os dias úteis receberam os outros 17%.
Os meses que fogem deste padrão são os das férias escolares, já que em janeiro e julho, a concentração de visitantes nos dias de semana correspondeu a 30% e 21%, respectivamente.
Em outubro também houve registro diferente do padrão em relação ao dia escolhido pelos romeiros para a visita à Basílica.
Impulsionado pela Novena preparatória para a Festa da Padroeira, 27% do total do movimento foi registrado em dias úteis. Ao todo, durante Novena e Festa da Padroeira (3 a 12 de outubro), mais de 320 mil devotos estiveram no Santuário Nacional.
Perspectivas de crescimento
Novos destinos, templos e atrativos oferecem novas opções e prometem ajudar a fazer crescer o volume de praticantes de turismo religioso.
Um exemplo é o novo Caminho Iniciático de Santiago de Compostela, no Paraná, que tem chancela oficial da Ordem do Camino de Santiago e permite que quem pretende fazer o célebre caminho europeu explore um trecho do oeste paranaense e já chegue à Europa com experiência.
Outro é o Santuário Turístico de Senhora Santana, em Santana de Ipanema, Alagoas, com uma imagem de 57 metros de altura, que deve ser oficialmente inaugurado no próximo ano.
Outro ainda é o belo Santuário de Deus Pai Todo Poderoso, que demorou onze anos para ser construído no alto de um monte na região do Sertão, na Paraíba.
As principais festas religiosas do Brasil vem atraindo quantidades cada vez maiores de participantes: a Festa do Divino Pai Eterno atraiu este ano 4,3 milhões de romeiros a Trindade, em Goiás, número 15% superior ao apurado em 2024, enquanto que a Festa do Círio de Nazaré, em Belém, teve mais de 2,5 milhões de fiéis homenageando Nossa Senhora de Nazaré em só uma de suas 14 procissões, com um crescimento de 10% no volume total de participantes, enquanto que a Festa da Penha, no Espírito Santo, registrou mais de 2,7 milhões de participantes.
No Exterior, depois de bons números registrados no ano passado, quando os Museus Vaticanos receberam 6,8 milhões de visitantes e o Santuário de Fátima alcançou 6,2 milhões de peregrinos, as expectativas também são de crescimento.
Na França, a Catedral de Notre Dame de Paris recebeu mais de seis milhões de visitantes entre 16 de dezembro de 2024 e 30 de junho de 2025, se tornando a atração turística mais visitada da capital francesa, após ter sido quase destruída por um incêndio em 2019. A perspectiva é de que mais de doze milhões de pessoas a visitem em 2025.
Em Barcelona, segunda cidade mais visitada por turistas na Espanha, o atrativo mais visitado já é a Basílica da Sagrada Família, que fechou 2024 com 4.833.658 visitantes, dos quais só 12,7% moravam na Espanha. A Torre de Jesus Cristo, maior de suas 18 torres, deve ser concluída no primeiro semestre de 2026, marcando o término de 144 anos de obras.
Decisões estratégicas
Já vimos a importância das informações que a análise dos dados pode nos fornecer. Mas, quais seriam as decisões estratégicas que podem ser tomadas com base nessa análise?
O leque dessas decisões é muito amplo, já que está diretamente ligado à realidade de cada destino, atrativo, cerimonia ou evento e aos dados obtidos, mas pode incluir alguns dos exemplos listados a seguir:
- Onde instalar placas de orientação orientando os veículos dos visitantes para que não causem transtornos no trânsito da cidade.
- Onde estacionar os ônibus que transportam os visitantes, evitando que fiquem parados em frente a residências e empreendimentos comerciais ou atrapalhem o trânsito de outros veículos.
- Quantos banheiros precisam ser disponibilizados para atender os visitantes
- Quantas vagas de estacionamento precisam ser criadas e para quais tipos de veículos (ônibus, vans, automóveis)
- Quantos confessionários precisam ser oferecidos para atender os participantes de celebrações religiosas
- Quantas partículas, âmbulas e patenas precisam ser providenciadas para atender quem vai comungar nessas celebrações
- Quantos folhetos de missa providenciar
- Quantas pessoas precisarão ser acomodadas em espaços reservados para deficientes, como será o acesso a esses espaços e que
- Que tipo de comida fornecer aos visitantes? Sanduíches ou pratos mais substanciais?
- Quantas garrafas/copos de água mineral será preciso comprar e refrigerar?
- Quantos caixas precisarão ser oferecidos?
- Quantos equipamentos eletrônicos (“maquininhas”) para pagamento com cartões de crédito ou débito será preciso providenciar?
- Como garantir que haja sinal de internet banda larga de qualidade para permitir o uso desses equipamentos sem problemas?
No moderno jargão de negócios, a utilização de dados para a tomada de decisões estratégicas é chamada de Business Intelligence, que podemos traduzir para “inteligência de negócios”. E quando a fé encontra a inteligência, o turismo se transforma e as decisões deixam de ser apenas estratégicas – passam a ser inspiradas.
Palestra apresentada por Amadeu Castanho no 7º Fórum Nacional de Turismo Religioso, em Trindade, Goiás, em 2025
Amadeu é jornalista, pesquisador e palestrante. Se especializou em turismo religioso, passando a ser uma das referências no Brasil sobre esse tema. Edita a revista eletrônica Viagens de Fé, única publicação brasileira focada em viagens religiosas, destinos religiosos, romarias e peregrinações. É diretor de Marketing da Associação Brasileira de Turismo Religioso.





